Fala-se muito no herói britânico chamado Robin Hood que, supostamente, roubava dos ricos para dar aos pobres. Ele tornou-se, assim, uma lenda, uma das maiores figuras da literatura; as suas aventuras correm mundo e servem como inspiração para muitos filmes. Quem não conhece João Pequeno e frei Tuth?
O seu nome, porém, calha bem para nomear um mal que assola, de forma especial, o nosso país: a necessidade de fazer "justiça" por conta própria devido a alguma adversidade sofrida. Temos o bandido que rouba e mata como vingança por ter perdido algum ente familiar, por viver na pobreza, por não arrumar emprego, por não conseguir se formar... Todo "injustiçado" julga-se no direito de tornar-se um justiceiro às avessas, que vai roubar, matar e depredar como forma de manifestar a sua indignação. O curioso é que nem sempre essa
justiça é
justa, volta-se contra os fracos e sem recursos e apoia os poderosos.
Exemplos desses justiceiros em nosso país são, sem dúvida, os famosos bandoleiros dos sertões nordestinos, chamados de
cangaceiros, dos quais Lampião é o ícone maior. O bandoleiro caolho é considerado, por muitos, como o
Robin Hood brasileiro. No entanto, é uma grande ilusão acreditar que os cangaceiros eram homens preocupados com a pobreza e dedicados a fazer justiça social quando eles mesmos contribuíam para fazer do sertão um local mais perigoso e dominado pela opressão. Cangaceiro com alto senso de hombridade, com coração bom e desvelo pelo pobre só existe em novelas e filmes. Dificilmente, um cangaceiro real teria tempo para alimentar esses sentimentos nobres na vida que levava; a maior parte, inclusive, prestava os seus serviços aos coronéis como meio de adquirir riquezas e prestígio, roubando terras alheias para aumentar o patrimônio dos grandes fazendeiros e exterminando famílias inteiras. Falar em cangaceiro "bonzinho" é como falar em pirata piedoso - os piratas eram homens que assaltavam os navios, incendiavam-nos, matavam os inimigos, torturavam os prisioneiros, geralmente a serviço de monarcas ansiosos por ouro e prata. Procura-se atenuar as maldades dos cangaceiros, falando-se na crueldade com que a polícia tratava as pessoas na época em questão, mas isso, em nada, diminui a gravidade do que os bandoleiros faziam. Os policiais eram corruptos (como, ainda hoje, existem policiais corruptos na organização), obedeciam as ordens dos coroneis, faziam serviço sujo, oprimiam a população. Os cangaceiros apareceram, não para libertar o povo desse sofrimento, mas, para oprimi-lo ainda mais e, quando havia guerras entre eles e os policiais ou os coronéis, dificilmente tinham como objetivo defender a causa do pobre ou desvalido, senão garantir ao grupo maior autonomia e controle sobre a sociedade - era uma guerra pelo poder, não pela justiça social. A verdade é que cangaceiros redimidos viravam policiais ou policiais viravam cangaceiros, pois os dois grupos manejavam armas e espalhavam terror - duas faces de uma mesma moeda, apenas com nomes diferentes. Claro que os cangaceiros não eram monstros, nunca foram, eram apenas homens - mas, faziam crueldades sim, por motivos sujos e por ganância. O terreno do sertão era propício a esse tipo de manifestação: um mundo à parte, olvidado pelo Governo, dominado por homens que possuíam títulos por conta própria e faziam as suas próprias leis por terem grandes extensões de terras, mandando na política e na religião locais. Extensão de terra sempre fora a medida do valor no território brasileiro, desde a colonização.

Esse é o problema de uma noção distorcida de justiça. A justiça deve ser feita contra quem pratica o mal e a opressão e não contra terceiros que, no fundo, são também oprimidos ou nada têm a ver com o assunto. O ladrão que rouba um pobre, alegando a sua própria pobreza e a riqueza do outro como razão para o que está fazendo não passa de um corrupto barato a quem as leis banais (ou não aplicadas) de nosso país permitem a liberdade e a facilidade de ações. Não adianta falar que o problema não é a lei - nenhum grupo social vive sem leis; e aqueles que mais falam contra elas, são os que mais criam leis absurdas e querem que os outros as sigam (não raro, à força).
Falar em crimes pela justiça e indignar-se contra o regime estabelecido para criar um outro regime de injustiças e sofrimento não é uma alternativa muito coerente, nem mesmo chega a ser uma solução viável para os problemas sociais.
Nisso consiste o complexo de Robin Hood, tão em voga no Brasil e no dias atuais. Se eu não tenho o que comer, vou roubar e matar; se não tenho emprego, adquiro um revólver (que é mais fácil do que adquirir comida) e vou assaltar os meus vizinhos em bando ou sozinho... Nunca vai existir verdadeira justiça social desse jeito - sempre vai vigorar uma estrutura decadente e corrupta que vai servir aos fins nada honestos de muitos governantes (satisfeitos com a situação em que o país se encontra, em que eles discursam muito, fazem pouco e continuam usufruindo os maiores privilégios). Essa é a questão: muitos grupos que falam horas a fio sobre justiça social não estão preocupados com a justiça social - estão preocupados em se projetar e em exibir suas qualidades oratórias (o discurso não é o meio, é o fim).
Mas, o que se pode esperar de um país em que a corrupção começa nos altos escalões e vai descendo até as classes mais baixas? O exemplo vem de cima - embora isso não seja motivo para seguirmos o exemplo. Há alguém, de fato, interessado em justiça social? Certamente, existem pessoas interessadas sim, mas, certamente também, não são a maioria.
Nesse contexto, não podemos esquecer Arsène Lupin, o bandido-herói dos livros de Maurice Leblanc, considerado o
Robin Hood francês, sempre roubando e enganando os poderosos (pouca violência, muita inteligência), mas sempre de bom coração, ajudando os fracos e oprimidos. Que belo exemplo de ladrão! Será que existe algum assim na realidade do nosso cotidiano?
Se analisarmos a história de Robin Hood que, provavelmente, inspirou-se em fatos verídicos (já que, por trás de toda lenda, há um fundo de verdade), veremos algumas incongruências, ou ao menos, ambiguidades que tiram parte do encanto da história. Será que Robin Hood, ou o homem que deu origem ao mito (seja ele quem for), só roubava mesmo dos ricos? Mas, quem era rico? Qualquer pessoa que tivesse algum bem seria considerada rica por eles? Além disso, todos os ricos eram maus? E quem eram os pobres a quem Robin Hood ajudava? Não seriam os membros de seu próprio grupo de ladrões? Isto é, Robin Hood roubava para si mesmo e seus companheiros (os
pobres). São alguns detalhes que mostram falhas no ideal nobre que se baseia na violência e no saque para fazer alguma espécie de justiça. Não sabemos até que ponto Robin Hood era violento (como a maioria daqueles que se dizem justiceiros), nem contra quem trabalhava realmente. De qualquer modo, os exemplos que vemos mostram que, possivelmente, não é arrancando à força o que aos outros pertence, cortando cabeças e orelhas, decepando braços e pernas, deflorando moças e estuprando mulheres, batendo a torto e a direito, revoltando-se contra terceiros e - mais que tudo - fazendo discursos bonitos e elaborados sem aplicação prática, discutindo ideias e mais ideias sem um objetivo definido que conseguiremos reformar a sociedade e implantar justiça social. O conceito, por si mesmo, não é tão simples, nem tão fácil de entender; mas, sabemos que gerar trabalho, acabar com a fome, sociabilizar a educação e a saúde, garantir a segurança, diminuir as discrepâncias econômicas entre os grupos de indivíduos são alguns efeitos do que chamamos "justiça social" e é por essas coisas que devemos lutar e alimentar esperanças.
